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Rengoku e a solidão de quem é o porto seguro de todo mundo
Por Marcos Antonio

Rengoku e a solidão de quem é o porto seguro de todo mundo

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A gente se orgulha de ser quem resolve tudo. É um vício silencioso ser o porto seguro de alguém.

Ele não tinha rede de segurança. Ele era a rede.

O Rengoku funciona como personagem porque nunca hesita em público. É essa constância que faz todo mundo ao redor conseguir agir — e é exatamente por isso que ninguém pergunta como ele está.

Quem sustenta os outros ganha um cargo que ninguém oferece formalmente e que também não vem com substituto. A partir do momento em que você se torna confiável, a sua instabilidade passa a ser um problema logístico para outras pessoas. E você sabe disso.

O vício de ser necessário

Existe um retorno real nesse papel, e ignorar isso é ser desonesto. Ser o porto seguro dá identidade, dá lugar, dá sensação de valor que não depende de negociação. É uma das poucas formas de importância que não precisam ser pedidas.

O problema é que esse retorno cria dependência dos dois lados. As pessoas dependem da sua estabilidade, e você depende de ser aquele que aguenta. Aí não sobra caminho de saída: admitir cansaço vira, na sua cabeça, uma quebra de contrato.

Incendeie o seu coração.

~ Kyojuro Rengoku · Demon Slayer, cap. 66 (orig.: “Set your heart ablaze.”)

O reconhecimento tem endereço errado

Quantas vezes você engoliu o próprio cansaço só porque sabia que tinha gente dependendo da sua estabilidade? Você paga as contas, resolve os problemas, escuta os dramas alheios e, no fim do dia, encara o teto do quarto num silêncio absoluto.

O elogio que essa posição recebe é sempre pela função, nunca pela pessoa. "Não sei o que eu faria sem você" é uma frase sobre a utilidade. E ela é sincera. Só não é sobre você.

Liderança é um lugar solitário — mas não precisa ser hermético

A saída não é abandonar o posto. Para a maioria das pessoas nessa posição, isso nem é desejável: elas gostam de sustentar, e são boas nisso. A saída é criar um canal onde a instabilidade caiba.

Uma pessoa, um espaço, um contexto em que você não é o porto de ninguém. Não porque você vai desmoronar, mas porque a alternativa é descobrir, tarde demais, que ser inabalável era só a ausência de qualquer lugar seguro para não ser.

Marcos Antonio

Caminha sempre um passo atrás do protagonista e dois à frente do perigo. Entre batalhas, teorias e maratonas de anime, busca provar que todo rival merece seu próprio arco de redenção.